terça-feira, 17 de abril de 2018


alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”.

Na época em que TV a cores era um luxo para poucos, em casa possuíamos uma Philco com um grande botão giratório de seleção de canais, outro para ajustar o a sintonia e mais outro para brilho e contraste. Era o luxo do luxo...O lugar exato da televisão era o espaço debaixo da escada, sob uma mesinha de madeira revestida de mogno, combinando ainda com o design do equipamento. Quase sempre na mesinha da TV e a na que ficava ao canto da parede, havia a combinação das toalhinhas de crochê, feitas pelas mãos delicadas de minha mãe, durante o horário de almoço do trabalho.
A programação tinha horário exato para começar, mas as manhãs eram recheadas de desenhos, muito desenhos...e outros programas infantis, como filmes, que iluminaram ou alteraram completamente a percepção de mundo de uma geração que cresceu entre 1973 e 1979.
Minha mãe saía muito cedo para a empresa. Atravessava a cidade em uma lotação, geralmente lotada...e ia ouvindo o mesmo noticiário todos os dias.
Antes de ela sair, havia todo o protocolo, para se arrumar, pentear e ajustar a rotina do dia. Lembro-me bem do pó compacto (Max Factor!), cujo perfume ficava nas bochechas que iríamos beijar, antes da partida, sempre atrasada, para a firma, onde era contadora.
Não tínhamos vitrola (meu sonho de infância!) e o rádio era aquele tão comum à época: de pilha, azulzinho, com uma antena curta que pegava a frequência AM, numa chiadeira horrível...ouvir música era uma tarefa difícil para esta que se dirige ao leitor, nesta data de hoje.
Então, era parte da rotina da criança que um dia eu fui, ligar a TV, às seis da manhã, para ouvir MPB, principalmente samba, enquanto a programação, de fato, não começava. As faixas coloridas matizando a tela. Muitas vezes, ainda pegava o locutor anunciando o prefixo com as informações gerais do canal sintonizado. A partir de então, tínhamos uma hora exatamente de música. Muitas vezes, bossa nova, samba de raiz e os temas das novelas em voga.
Havia uma mania silenciosa entre as vizinhas: puxar a cortina, abrir a janela (para entrar o ar puro!), e varrer a calçada. Uma vigiava a outra, para ver quem punha os pés na calçada mais cedo...e eu, menina sapeca que era, morrendo de sono, geralmente era a primeira...e ainda tinha a pachorra de ir com a panela de café para mexer o pó na água quente, bem debaixo da janela, para que o cheiro espalhasse. Minha mãe que nada acompanhava dessa rotina, sentia o cheiro do café coado e já sabia que tudo estava pronto: leite fervido, café, pão e margarina. Quando muito um ovo frito. E lá ia ela, após beijar as filhas e o filho mais novo.
Eu ficava com a vassoura na mão, para limpar a sala, ou brincar de limpar a casa, porque o que fazia mesmo era aumentar o volume da TV, no último alcance, para ouvir música. Foi assim que cheguei a Dona Ivone Lara, pelas vozes de Maria Bethânia e Gal Costa, e a um dos melhores sambas que embalaram minhas rodopiadas, vassoura em punho, na simples sala da Vila Ré. “Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu. Vai mostrar essa saudade, sonho meu, com a sua liberdade...sonho meu...no meu céu a estrela guia se perdeu...”
Quando não eram Gal e Bethânia, era a voz de Bete Carvalho, João Nogueira, Clara Nunes e outras vozes do Samba...Vez por outra vinha Bethânea alertando que “eu estou aqui, que que há...foram me chamar...”
E é assim que hoje abri os olhos, procurando a estrela guia que foi morar longe... Salve, Dona Ivone Lara... a benção a “alguém [que] me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”.


Imagem: Acervo Pessoal da Autora. 1974, SP - Vilá Ré


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

No lugar de mãe...para um pai que chora...

Infelizmente, nós, pais, não podemos viver pelos filhos, no lugar deles.
Cada filho toma um rumo diferente daquele que esperávamos. 
Pais sonham com a futuro promissor dos filhos.
Pais sonham com as conquistas dos filhos. Muito embora cada pai e cada mãe deseje o melhor para eles, nenhum consegue segurá-los com correntes nem determinar qual a melhor trilha para ser seguida, experienciada ou vivida. 
Pais e mães podem se libertar da obsessão do controle efetivo dos filhos para garantir uma caminhada segura e tranquila.
Já os filhos precisam e devem sofrer. Precisam e devem viver desafios que os tornem maduros e seguros de si. 
Sofrimento vem. Lágrimas virão. Escolhas trazem suas próprias consequências. Histórias de vida são tecidas por trilhas. Pais e mães viveram suas trilhas. Cada um chegou a ser o que é, independente daquilo que seus próprios pais sonharam. Entre abraços, beijos, cuidados, comidinhas especiais, quartos limpos, mesada, não há como evitar a violência, a falsidade, a dor e as lágrimas que a vida produz. 
Ótimo mesmo era ter um mundo cor de rosa e iluminado. Porém, isso não existe na vida real. Sem sofrimento, nossos filhos não saberão se defender. Se cada um levar para o mundo a lanterninha que cada pai e mãe (ou avó, avô, responsável, como convém ao mundo de hoje) lhe deu para se orientar na vida...a própria corrente da vida traçará os percursos adiante...


Arquivo Pessoal da Autora. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

O que será que comemoramos?





Será que temos o que comemorar no dia 08 de março? Porque, quando olho para a luta coletiva das mulheres homenageadas com a data, não vejo tanta mudança assim. Claro, há tecnologias e desenvolvimento que não havia naquela época, mas bem ali, logo ali, tão perto, as marisqueiras, mulheres do campo, as meninas da África, da Índia, do Paquistão, da rua, da beira-mar, das clausuras trabalham de sol a sol, são impedidas de estudar, de trabalhar (enquanto profissionais, porque trabalho é só que todas fazem), são mutiladas, queimadas, silenciadas, torturadas.
Uma trabalham em nome de Deus (servas sem remuneração), outras, trabalham em nome do corpo (as escravas), aquelas ali trabalham em nome dos filhos que estão em casa à espera de um prato de comer (muitas vezes, um prato mesmo). Milhares, como eu, trabalham para compartilhar com os parceiros uma rotina cruel e desumana, quatro mãos a contar, mês a mês, o que não vai sobrar nunca, para as férias tão merecidas e para a aposentadoria cada vez mais longe.
Será mesmo que temos o que comemorar no dia 08 de março? Eu. Eu mesma, todinha em minha alma questionadora, olho meus rastros e me pergunto: “Que mulher sou eu neste mundo onde minhas irmãs se perdem, das seis da manhã até quase meia noite para dar conta de um cem número de tarefas que não se acabam nunca?”
Sou um ser coletivo, mas vejo tão perto de mim, a diarista que me acompanha há anos nessa luta diária, não poder trabalhar, porque a creche onde a filha de quatro anos estuda (bem ali em Macaíba) não tem mais o período integral. Ainda ontem, ela deixou a filha na casa da madrinha, para poder trabalhar...ninguém pode se dar ao luxo de estudar, quando a mãe precisa ajudar em casa! Rapidamente, vivi os tempos de  infância, quando minha mãe nos deixava sozinhas em casa, uma com seis e outra com cinco anos, porque morava sozinha em São Paulo, sem marido, sem família e precisava “dar o que comer para as filhas!”
Do muito que se pode comemorar com rosas, mensagens coloridas, amáveis, eternas, suaves como os tapas, os murros, a pele manchada de roxo (das tantas quedas pela sala, esbarrões na escada, tropeços nas entradas dos quartos), tudo não diz nos cartões, posts e reportagens o quanto ser mulher é sublime, heroico e transformador. De manhã, lágrimas nos olhos, à noite, sorrisos e alma escondida, como a lama que chega nas enchentes e que ela precisa empurrar casa afora, com um rodo.
Que conquistas são estas a comemorar? Como muitas mulheres professoras, não podemos apenas receber as mensagens e ir pra casa de coração sereno. Porque no fundo, ao olharmos ao lado, o fazer docente não atinge inúmeras mulheres que não leem, não escrevem, não podem ler, não podem escrever. É proibido. É pecado. É perigoso. Não, não estamos mais na Idade Média. Não mais. Porém, a escrita não está na vida de muitas mulheres ou, quando está, faz parte de uma ideologia estúpida e instruída para ler o que o pai, o marido, o homem diz que é para ler ou escrever. Os desígnios de Deus não podem atingir a mulher que estuda. O melhor mesmo é que ela fique cega, às cegas. Tateando em busca do tal príncipe encantado. Estou sendo cínica. Pode ser também uma princesa...mas a ilusão do amor eterno não se acaba com a madrasta malvada bem pertinho da TV e do celular, dos toques do teclado, das conversas pelo Skype e outras mídias
Por que comemorar o dia 08 de março? Logo ali, bem ali, na beira mar, a bandida, de saia curta, top e maquiagem engoliu os olhares sacanas de quem a culpa pelo estrupo, pela passada da mão (nada boba...) e, se ela grita, denuncia, é vadia, “a serpente que provoca” o homem. Na delegacia, vomitam olhares, críticas e culpa: “Quem procura, acha!”. “Não quis ser livre? Agora, toma!”.
E como toma a mulher que comemora o 08 de maio! Toma nas costas, no bolso, nas mãos...e nem adianta esconder com esmalte e batom, a nudez da opressão não se esconde. É hora de sair correndo para o trabalho, e o arroz não está sequinho, a carne (quando tem!) não pegou o tempero direito e se bobear, sai tudo queimado. Um menino amarrou com um nó o tênis com luzinhas que piscam. A outra menina copiou da internet o resumo para entregar na escola. “Sábado que vem eu corrijo, filha!” e nunca mais o sol bateu naquela plantinha já feia que apodrece na mesa da sala.
Não dá para abrir mão do voto, da licença-maternidade, do trabalho e do salário (nada igual) ...Mas se põe o peito pra fora, o mundo grita: “saía com uma mamadeira, está se expondo, está me constrangendo com a boca dessa criança chupando um peito desses!
Não dá para abrir mão do salto alto, dos cabelos retocados e alisados (cachos não combinam com você? Você tem rosto pra cabelo liso, hehehe!), mas a beleza fica para trás do primeiro tanque, da primeira pia, das fraldas cagadas para trocar! “Quem pariu Matheus que balance!”. E se não quiser parir?! Não pode! Porque parir é um ato divino! “Ser mãe é padecer no paraíso!”...Foi abrir as pernas, agora, aguente! E o Deus branco vem lá todo firme a condená-la a trabalhar eternamente com o suor derramado nas faces pobres, abandonadas, de cútis borrada, pelo rímel que não suporta o peso da Terra nem da bolsa sobre os ombros.
A bolsa pesa. É a marmita. Como vi minha mãe com uma marmita na bolsa. Ou pegava ônibus ou ia de lotação. Nada mudou de 1976 para cá. Ainda há quem belisque, quem aperte, e quem não suporte o membro exposto na multidão dos transportes públicos. Ah, foi sem querer!
E as guerreiras, infames, desalmadas, aladas, modernas, religiosas, putas, professoras, mães, tias, primas, sogras, noras, terroristas, mulheres-bomba, soldadas e sempre mulheres, mas sempre mulheres continuam brigando com o relógio, com as datas (muitas esquecidas!) e este 08 de março, que não pode passar incólume.