segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Meu adeus a Sapoti


Só hoje consegui sentir meu luto por Ângela Maria. Só hoje consegui ouvir aquelas músicas que retomam as tristezas de minha memória que são também uma linha tênue para a pouca felicidade de minha infância. Minha mãe possuía um repertório variado indo do samba à MPB, a boleros, tangos e clássicos dos anos 50 e 60. As músicas eram cantadas baixinho, quase que escondido, não sei se ela tinha medo de soltar a voz, que estava lá, bem viva, como nos tempos em que fora radialista em Juazeiro do Norte. Ela era nostálgica e isso veio junto com a minha criação. Ângela Maria entrava nos cantos da casa de paredes mofadas, para lembrar de algum modo que eu era gente humilde também...com flores na varanda, varal repleto de lençóis e sábado de faxina, com bobs nos cabelos e um sorriso alegre por fora, triste por dentro.
Ângela Maria tomava conta da sala, no Almoço com as Estrelas (alguns leitores não saberão do que falo!), com aquelas mulheres lindas em longos e babados, mangas bufantes e risadas e músicas...e mais músicas por trás das cortinas finas de nossa sala simples.
Vez por outra, lágrimas saíam dos olhos míopes de minha mãe...e eu que não posso ver ninguém chorando, também chorava, sem saber porque chorava. As músicas doíam mais que a saudade a roer o coração cearense daquela mulher sozinha. Bem, sozinha não, duas meninas estavam lá para lembrar a velha história de amor que no tempo ficou. Minha avó dizia que havia criado minha mãe para ser uma princesa. Só muitos anos depois entendi, porque Cinderela entoava no quintal lá de casa. O amor poderia vir de onde viesse, mamãe estaria lá, o avental todo sujo de ovo, fazendo bolo e brigadeiro para encantar os dias de fantasia de duas meninas que brincavam de xicrinhas e panelinhas no quintal da casa de minha infância. A rosa mais linda, a primeira estrela, a paz das filhas dormindo enfeitavam a tristeza das noites sem o bem profundo que ela tanto amou. Que será da vida que não consigo mais tocar? Ai, Ângela, ainda lhe ouço, como se aquelas paredes estivessem vivas como antes, anunciando sinfonia de pardais e as Aves Marias que aprendi logo cedo, com o mundo inteiro do morro onde nasci. Mamãe, mamãe...tu és a razão...para eu ainda chorar e sorrir.

domingo, 2 de setembro de 2018

De livros, estantes e lembranças - cenas da vida de uma professora

Cenas da vida 1 - Campus de Natal, agosto de 2018.

"Dona, posso lhe fazer uma pergunta?"
"Claro!" - A mulher parou de colocar os livros na prateleira da casinha fixada ao lado da parada de ônibus, bem ali na Avenida Dr. João Medeiros Filho, na Zona Norte de Natal.
"Por que a senhora está botando esses livros aí, se vão ser roubados?"
"Roubados? Hum...Mas a ideia é esta! Bom, melhor dizendo, a ideia é que as pessoas levem os livros para casa".
"E como se sabe que a pessoa levou para casa...e se ela for vender?"
Novamente parando de arrumar os livros enormes em um espaço tão pequeno...
"Bom, não tem como saber".
"Mas, então, porque coloca?"
Havia um certo olhar de espanto no rapaz, branquinho, cabelos cacheados, os óculos enormes...
"A gente espera que as pessoas leiam os livros...é só isso.
A mulher se afastou por uns minutos e voltou com mais livros. Na mão tinha três em separado: dois romances de Jorge Amado em capa dura e um livro de Pedro Bandeira. Do caminho em que passara na volta, pôde ver que além do rapaz com quem conversara, outro estava folheando os livros. Ela agira rápido: fora em sua sala buscar mais livros para a "Casa das Palavras".
"Tomem, aqui são obras para a idade de vocês. Aquelas são mais para crianças. Os jovens receberam os livros desconfiados.
Não tinha mais o que fazer, voltou para a sala de trabalho. Não quis olhar para trás, estava com os olhos cheio de lágrimas. "Quem rouba livros nesse mundo?!"







Cenas da vida 2 - Sala do PIBID

As paredes não riem mais. Os livros estão mundo afora: doados, separados para outros leitores.






 A memória puxa para algum tempo atrás: paredes enfeitadas com quadros produzidos por alunos da Escola Municipal Profa. Terezinha Paulino, inspirados por Patativa do Assaré. Atividades das Escolas Bernardo Nascimento, Francisco Varela e Ivonete Maciel.


Mas o que mais encantava a sala eram o calor, a alegria, a risadaria, o momento de estudo. Havia momentos que não cabia todo mundo, mas todo mundo queria estar junto e no espaço de nossa identidade: PIBID Ensino Religioso/Ciências da Religião.
A sala ganhou identidade.


Era espaço de sorrisos, livros, lágrimas, angústias e muita dedicação. Estudantes de vários períodos passaram por ali e deixaram uma marca: um coração selvagem, um enfeite de Natal, um livro que ia para a mente, fortes laços que as paredes vazias (repletas de pregos) não vão retirar da mente de quem ali se alimentou (cabeças, amigos, ratinhos...).

Os livros foram doados, precisam ir para mãos e leitores. Alguns da própria UERN, outros, de lugares distintos.

Uma dor amarga: como passar por ali e não lembrar?

Espaços são parte de uma história e da memória. Um beijo no coração dessa sala-mundo, sala-gente que virou lugar de trabalho coletivo!