quarta-feira, 8 de março de 2017

O que será que comemoramos?





Será que temos o que comemorar no dia 08 de março? Porque, quando olho para a luta coletiva das mulheres homenageadas com a data, não vejo tanta mudança assim. Claro, há tecnologias e desenvolvimento que não havia naquela época, mas bem ali, logo ali, tão perto, as marisqueiras, mulheres do campo, as meninas da África, da Índia, do Paquistão, da rua, da beira-mar, das clausuras trabalham de sol a sol, são impedidas de estudar, de trabalhar (enquanto profissionais, porque trabalho é só que todas fazem), são mutiladas, queimadas, silenciadas, torturadas.
Uma trabalham em nome de Deus (servas sem remuneração), outras, trabalham em nome do corpo (as escravas), aquelas ali trabalham em nome dos filhos que estão em casa à espera de um prato de comer (muitas vezes, um prato mesmo). Milhares, como eu, trabalham para compartilhar com os parceiros uma rotina cruel e desumana, quatro mãos a contar, mês a mês, o que não vai sobrar nunca, para as férias tão merecidas e para a aposentadoria cada vez mais longe.
Será mesmo que temos o que comemorar no dia 08 de março? Eu. Eu mesma, todinha em minha alma questionadora, olho meus rastros e me pergunto: “Que mulher sou eu neste mundo onde minhas irmãs se perdem, das seis da manhã até quase meia noite para dar conta de um cem número de tarefas que não se acabam nunca?”
Sou um ser coletivo, mas vejo tão perto de mim, a diarista que me acompanha há anos nessa luta diária, não poder trabalhar, porque a creche onde a filha de quatro anos estuda (bem ali em Macaíba) não tem mais o período integral. Ainda ontem, ela deixou a filha na casa da madrinha, para poder trabalhar...ninguém pode se dar ao luxo de estudar, quando a mãe precisa ajudar em casa! Rapidamente, vivi os tempos de  infância, quando minha mãe nos deixava sozinhas em casa, uma com seis e outra com cinco anos, porque morava sozinha em São Paulo, sem marido, sem família e precisava “dar o que comer para as filhas!”
Do muito que se pode comemorar com rosas, mensagens coloridas, amáveis, eternas, suaves como os tapas, os murros, a pele manchada de roxo (das tantas quedas pela sala, esbarrões na escada, tropeços nas entradas dos quartos), tudo não diz nos cartões, posts e reportagens o quanto ser mulher é sublime, heroico e transformador. De manhã, lágrimas nos olhos, à noite, sorrisos e alma escondida, como a lama que chega nas enchentes e que ela precisa empurrar casa afora, com um rodo.
Que conquistas são estas a comemorar? Como muitas mulheres professoras, não podemos apenas receber as mensagens e ir pra casa de coração sereno. Porque no fundo, ao olharmos ao lado, o fazer docente não atinge inúmeras mulheres que não leem, não escrevem, não podem ler, não podem escrever. É proibido. É pecado. É perigoso. Não, não estamos mais na Idade Média. Não mais. Porém, a escrita não está na vida de muitas mulheres ou, quando está, faz parte de uma ideologia estúpida e instruída para ler o que o pai, o marido, o homem diz que é para ler ou escrever. Os desígnios de Deus não podem atingir a mulher que estuda. O melhor mesmo é que ela fique cega, às cegas. Tateando em busca do tal príncipe encantado. Estou sendo cínica. Pode ser também uma princesa...mas a ilusão do amor eterno não se acaba com a madrasta malvada bem pertinho da TV e do celular, dos toques do teclado, das conversas pelo Skype e outras mídias
Por que comemorar o dia 08 de março? Logo ali, bem ali, na beira mar, a bandida, de saia curta, top e maquiagem engoliu os olhares sacanas de quem a culpa pelo estrupo, pela passada da mão (nada boba...) e, se ela grita, denuncia, é vadia, “a serpente que provoca” o homem. Na delegacia, vomitam olhares, críticas e culpa: “Quem procura, acha!”. “Não quis ser livre? Agora, toma!”.
E como toma a mulher que comemora o 08 de maio! Toma nas costas, no bolso, nas mãos...e nem adianta esconder com esmalte e batom, a nudez da opressão não se esconde. É hora de sair correndo para o trabalho, e o arroz não está sequinho, a carne (quando tem!) não pegou o tempero direito e se bobear, sai tudo queimado. Um menino amarrou com um nó o tênis com luzinhas que piscam. A outra menina copiou da internet o resumo para entregar na escola. “Sábado que vem eu corrijo, filha!” e nunca mais o sol bateu naquela plantinha já feia que apodrece na mesa da sala.
Não dá para abrir mão do voto, da licença-maternidade, do trabalho e do salário (nada igual) ...Mas se põe o peito pra fora, o mundo grita: “saía com uma mamadeira, está se expondo, está me constrangendo com a boca dessa criança chupando um peito desses!
Não dá para abrir mão do salto alto, dos cabelos retocados e alisados (cachos não combinam com você? Você tem rosto pra cabelo liso, hehehe!), mas a beleza fica para trás do primeiro tanque, da primeira pia, das fraldas cagadas para trocar! “Quem pariu Matheus que balance!”. E se não quiser parir?! Não pode! Porque parir é um ato divino! “Ser mãe é padecer no paraíso!”...Foi abrir as pernas, agora, aguente! E o Deus branco vem lá todo firme a condená-la a trabalhar eternamente com o suor derramado nas faces pobres, abandonadas, de cútis borrada, pelo rímel que não suporta o peso da Terra nem da bolsa sobre os ombros.
A bolsa pesa. É a marmita. Como vi minha mãe com uma marmita na bolsa. Ou pegava ônibus ou ia de lotação. Nada mudou de 1976 para cá. Ainda há quem belisque, quem aperte, e quem não suporte o membro exposto na multidão dos transportes públicos. Ah, foi sem querer!
E as guerreiras, infames, desalmadas, aladas, modernas, religiosas, putas, professoras, mães, tias, primas, sogras, noras, terroristas, mulheres-bomba, soldadas e sempre mulheres, mas sempre mulheres continuam brigando com o relógio, com as datas (muitas esquecidas!) e este 08 de março, que não pode passar incólume.




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