quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sobre Pietàs desse mundo

Pietà de Giovanni Bellini (1460/4) |
 Galleria dell’Accademia, Veneza
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Muito difícil mesmo é ver uma mãe, carregada de dor no semblante, contar (talvez pela milésima vez) sua via crucis com um filho doente. Mais difícil ainda é dizer "já sofri tanto nessa vida" diante de uma breve narrativa que mistura coragem-desânimo, fortalecimento espiritual-amargura numa trajetória que tinha tudo para ser uma feliz história de uma família unida, com filhos bem criados, formados e estabelecidos. Foi isso que ouvi em minhas andanças como gente, ao conhecer uma distinta senhora e mergulhar em seu desabafo no tempo de poucas horas de viagem.

A Pietà de Miguel Ângelo (1498) | 
Basílica de São Pedro, Roma
Não cai bem, para meu espírito de mãe, detalhar a dureza que tomou conta dos dias dessa mãe, seria extremamente de mal gosto e poder-se-ia entender que usei da dor alheia para "me inspirar". Ao contrário disso, também desabafo aqui, para dizer que não sofro nadinha, já sofri um dia, mas passou, ficou lá atrás. E isso é tudo. Mães idosas que carregam no colo filhos jovens doentes; mães que enxugam dores, suores e lágrimas de filhos desiludidos pela doença "com nome ruim", tratamento desumano em longas sessões de espera e ânsia; mães idosas a cantar, a orar, a levantar os olhos  pro céu - sem nem saber se é em súplica, em espanto ou mesmo incredulidade, tudo isso me fez lembrar de minha avó Edith, quando um dia, segurando as contas do rosário, deixava cair suas lágrimas de cor azul pelo canto dos olhos, disse baixinho: "Nenhuma mãe deveria ver um filho sofrer, quanto mais enterrá-lo. Isso é contra a ordem natural! Eu deveria ter ido primeiro". E eu sabia que ela falava de minha mãe - cuja morte prematura ela nem viu nem acompanhou. Para Deus dizia sempre: "Nem pude cuidar de seu corpo doente!".

A nobre mulher que conheci nessa viagem, disse algo que me tocou a alma, assim como as palavras de minha avó: "Nessa idade, quando tudo estava arrumado, organizado e eu tinha cumprido minha missão de mãe, vem a vida e muda tudo. Estou a cuidar de um filho homem, do mesmo jeito que um dia cuidei de um filho bebê doente!". E seus olhos bailaram no vazio da janela do carro. A imagem disse tudo, enfim.













La Pietà de Salvador Dalí (1982) | 
Teatro-Museu Dali, Figueres


2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Tenho encontrado muitas mães que, a exemplo da "Pietá", Mãe de Jesus, são verdadeiras heroínas na dedicação a filhos doentes ou em situações de risco, como os dependentes de drogas...

Um relato dramático,oportuno, para grande reflexão.
Um abraço!

Pedra do Sertão disse...

Pois é, Lúcia, tantas Pietás nesse mundo enorme!