terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

02 de fevereiro...dia da Rainha do Mar

02 de fevereiro...dia de deixar uma oferenda para o Mar. Como povo da Terra, do Sertão...da Montanha...me encanto com o Mar, com as Sereias, Janaína, Jandiras, Yemanjá, Dandalunda, Alomoas, Yara...e Nossa Senhora dos Navegantes...As Mães dos Mares...que levam as dores nas ondas e trazem amores para os que têm fé nas águas limpas do mar...eu creio e tenho fé nas águas do mar...tão lindas, misteriosas...que levam a Outros Mundos... Já lavei meus pés...já benzi minha alma. A benção, minha mãe, a benção, meu mar...quisera eu navejar sob as águas, sob seus Olhos negros, suas mãos leves, seus Cabelos Longos, em Ondas Soltos...a benção, Mãe Guerreira, Protetora...Nós precisamos de Paz!




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Imagem: Acervo da Autora

domingo, 15 de novembro de 2015

Lembrando ainda do Rio Doce em plena vida...



A minha primeira viagem de verdade foi para o Ceará...em dezembro de 1978, para minha mãe pagar uma promessa. Viagem de 3 dias dentro de um ônibus - SP-CE, pela BR 116...o trecho mais lindo e mais longo é o que corta o Estado de Minas Gerais e onde fiquei mais encantada com as montanhas, estradas sinuosas e os rios...Depois fizemos outra viagem em dezembro de 1980. Em ambas as viagens, Minas Gerais era a beleza que me encantava...Nos anos de 1982, 1983, 1985, 1988, fiz alguns percursos entre a BR 101 e a 116, primeiro com meu tio Edgar e, depois com meu pai - de caminhão - em meus diários, descrevo impressões maravilhosas sobre o Rio Doce e o o rio Gandhu e as maravilhas que vi entre Minas, Espírito Santo e Bahia..."Nenhum livro de Geografia vai lhe ensinar nada do que você está vendo, minha filha, dizia meu pai"...Tem cidade muito linda por onde o Rio Doce serpenteia, mas bonito mesmo é quanto chega no Espírito Santo...você vai ver. No dia que passamos em Governador Valadares, eu fiquei em êxtase: lembrando das viagens de ônibus...de minha mãe...e da lindeza do rio. Papai sempre muito esperto, me observava o tempo todo: "Daqui de onde estamos, você vê aqueles doidos saltando lá de cima, do Pico Ibituruna, quer ver? quer ver? E papai freava, por cima da Ponte. Deixando-me ver os voos de asa delta (naquela época eu queria saltar de asa delta...ah os 19 anos!). Essas surpresas eram de tirar o fôlego e meu pai era ardiloso. Ele ainda me levou para ver a Pedra do Itaúna, em Caratinga, bem de perto! e tudo dizia que se eu saltasse, um dia, não seria um espanto, para ele...Ele já sabia de meu gosto pela escrita. Quando parava para abastecer ou fazer qualquer coisa, como martelar os pneus, lavar o párabrisa, aspirar a cabine, lá estava eu com meu caderninho de viagem...escrevendo...escrevendo...e ele perguntava: "o que tanto tu anota aí? E eu dizia: "Aqui é meu diário de viagem, para eu não esquecer de Minas Gerais, dessa estrada longa". E no jeito desavergonhado de seu Pedro de ser, arrematava: "Tu foi feita nessas estradas, no caminho para Belo Horizonte, lembra, não? Por isso, gosta tanto dessas pedras, dessas serras, desses rios!... Eu já cai num rio desses uma vez, sabia,?! Você nem tinha um ano. Fiquei preso no pedal do carro e quase morri....um dia conto!" ....Mas eu já sabia dessa história, minha mãe já havia contado uma vez.... e meus olhos voltavam-se para a ponte sob o rio amarelado de Governador Valadares..."um rio enorme...do tamanho do mundo...porque chegava em outro Estado"... pensamento que me vinha sempre que ali passava...e me lembrei dos olhos arregalados, grudados no vidro da janela do ônibus da empresa Transcariri...na primeira vez que ali passara, em 78...e é que ainda nem conhecera o São Francisco ainda...outro grande rio de minha vida e de meus diários de viagem!Por isso, me dói tanto, ver as águas do Rio Doce...enlameadas de morte...





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Imagem: Pesquisa Google: asa delta Pico Ibituruna

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Mulher pós prova do ENEM 2015 – quem tem medo?

Cena I
cá estou eu pensando nessa rua cheinha de poeira
enquanto madame ainda não levantou
ainda dá tempo de coar café e espiar o porteiro da esquina

Cena II
a menina colou o ano inteiro e nunca leu nada sobre o tal feminismo, Friedrich Nietzsche,  Paulo Freire, só queria balada, acontecer, virar vodka com qualquer coisa que a deixasse animada....

Cena última

cá está a mulher que passou a juventude irritada com as receitas e as panelas
lia Beauvoir , Sartre, Ricoeur, Foucault  e Barthes
um dia sacudira as panelas nas praças com as mães de luto
outro dia, lutara contra as correntes, os tapas, os porões, as máquinas,
mas não cozinhava nem lavava
o homem ao lado só comia: a comida, regada ao vinho francês e a mulher, das pernas grossas.

No dia da prova, a pia cheia, era coisa de mulher, para mulher.
A mágoa reinava na alma ferida.
Três dias para dar conta de tanta louça.
Nem Simone nem ninguém.
Nem os filhos nem o marido iriam lavar as tralhas da cozinha.
Tinha que ser ela mesma, com leitura, feminismo, lágrimas,
raiva, rancor, mãos suaves, porém, para deixar sua casa arrumada, do jeito só dela, para ir além da vida, começar novamente a comer, ser comida, dar de comer, por a comida na boca dessa gente toda do mundo que tanto precisa de vida!

Grand Finale

Nesse mundo onde as moscas mortas metamorfoseadas em homens  laboratórios e baratas verdes dólar fumegantes faltam mãos e panos para enxugar as louças velhas daqueles armários recém comprados nas grandes lojas numa promoção a perder de vista!



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Imagem: http://sensacionalista.uol.com.br/2015/10/26/enem-conheca-o-drama-de-quem-nao-tinha-google-para-ver-quem-e-simone-de-beauvoir/


sábado, 8 de agosto de 2015

uma cena de 2003

Naquele dia, ela seguiu todo o esquema de seu cotidiano: estendeu os lençóis bem abertos, prendendo-os com a firmeza dos prendedores de plástico. Juntou os brinquedos espalhados do quarto ao corredor indo todos chegar até a área em frente à casa. Nenhum som havia acordado as crianças (ainda) e sorriu. Hoje é o dia de apagar os rastros...

A despensa ficara vazia. O fogão desligado. A mesa em ordem, sem pratos, nem copos sujos. Por instantes, a ordem era tão cheia de realidade! E ela sorriu de novo.


Nada de beijos, broncas, correria, hora de mingau, hora de jogo de encaixe, hora de nanar, hora de inventar...ô relógio amargo dessa vida - a me controlar!


Caminhou, caminhou, caminhou...até encontrar a rua dos consertos. Em cada lojinha cabia algo quebrado. Carregava uma sacola de plástico. De vez em quando os objetos se encontravam na sacola e se ouviam os sons das peças soltas. Haveria conserto para mulheres más!?


Vai deixar tudo isso?

Sim.
Metade adiantado.
?
Os clientes têm mania de deixar as coisas e ir embora e eu fico no prejuízo. Agora exijo logo. Mas você não tem cara de que vai largar essas preciosidades...hehehe..

E ela viu o cinismo nele. Os bigodes enormes. Homem esperto. Não, homem burro!


Tome. 

Mas eu nem disse o valor!
É para cobrir os gastos com o que não tem conserto!

E riu. Riu de si mesma. Riu da sala aberta, com as cortinas voando livres por sobre o sofá azul. Todo o tempo do mundo cabia na casa agora, sem medidas, tics-tacs, controle ou vigias. Todo o tempo do homem que trouxera os relógios da casa da mãe estava naquela sacola. Ela disse que você não sabe organizar o tempo! E, aos poucos, todos vieram para alertá-la, orientá-la. Em cada cômodo, nas estantes, na parede da cozinha...ao lado da cabeceira da cama. Pluft! Agora, estão na rua dos consertos...Já poderia ir embora de vez, como planejara um dia.


A mesa redonda, de madeira simples só faltava cair, com a brutalidade e a agitação das crianças. Cada uma queria uma coisa e cada uma não queria nada. Quem não comia, chorava. Quem comia, reclamava. Quem olhava, murchava. Meia hora para comer! Comer com calma, mastigando. Não fale com a boca cheia! Tome o suco. Olhe a hora! Vai perder a aula. Já tomou o remédio? Olha a roupa, vai manchar tudo. Quinze minutos e o prato cheiinho ainda!!! E o diabo desses ponteiros andando! 


Tchau, gente. Vou-me embora!


Nem notou o vestido de casa, com buracos. A chinela velha. Abriu o portão e se foi.


Claro que voltou. Meia hora depois. Sem lágrimas. Rosto renovado. Descobrira a doença  de que tinha que se livrar. A mesa estava endireitada também. A criança tinha as mãos gordas e lhe secava o rosto suado, do calor do meio dia! Faça mais isso, não! Todo mundo comeu, mas chorou também, com medo de tu não voltar....E tu voltou. E tu voltou... Eu falei para eles...ela só precisa de tempo.


Os olhares negros se encontraram, ela se lembraria disso para sempre. Não, criança, eu não preciso mais de tempo. Me livrei dele!




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                                           Paul Klee: Dancing Girl, 1940.

                                          Pesquisa Google: http://www.artic.edu/aic/collections/artwork/10018

sábado, 4 de julho de 2015

Um ipê para Agnelo

Muitos escritores escrevem por vários motivos. Eu gosto de escrever para não me esquecer...para determinar pontos eternos e até para despistar a Morte...e essa criatura nesses dias chegou, na cidade onde moro, levando um de seus políticos mais importantes.
Não gosto de escrever sobre política. E, quando escrevo, sou radical.  Também não gosto de escrever sobre a Morte. Gosto de escrever poesia, sobre beija-flores, árvores e sobre aquilo que inexiste na língua comum.
Mas sou uma pessoa comum, com olhos de poeta espantada. Cheguei para residir em Parnamirim há exatamente quinze anos e alguns meses e a cidade foi mudando significativamente em todo esse tempo. Vez por outra cruzava com Agnelo Alves em eventos literários, cumprimenta-o e me divertia com o jeito simples, simpático daquele mesmo homem que reconhecia como o político da cidade. Como pessoa comum, a gente se cruzava no carnaval de Pirangi, nos eventos de minha rua, de meu bairro e, assim, fui me afeiçoando à pessoa comum com quem, de vez em quando, topa com a gente e que sempre tinha uma história a contar.
E eu adoro ouvir histórias...mas também adoro plantar árvores. E, no mundo antigo, havia povos que homenageavam seus mortos, plantando árvores para cada alma que se ia, significando que suas raízes, caules, troncos, frutos e flores iriam perpetuar o nome e a história daquele ser... E foi o que fiz. No dia que Agnelo chegou de São Paulo, por motivos mil, não pude me despedir dele do modo convencional. Fiz do modo Araceli de ser.
No dia seu sepultamento, estava juntando as árvores que iria plantar no canteiro da rua Petra Kelly, bem ali atrás do Boullevard. Um canteirinho por onde passo todo dia e que imagino cheio de plantinhas e árvores. Desde que a rua nem era asfaltada, vivo a plantar uma mudinha aqui e outra ali, assim como outras vizinhas e vizinhos o fazem na extensão de toda a Petra Kelly, na tentativa de torná-la esteticamente florida... Havia chovido e alguns funcionários da prefeitura estavam fazendo a limpeza, retirando os matos, varrendo e juntando os entulhos. Já havia passado pela rua umas duas vezes e acompanhado o ponto em que eles estavam limpando, para dar tempo de chegarem exatamente no canteiro no momento certo de eu levar as mudas. (Sou muito calculista. Planejo minhas ideias bem direitinho, meu povo, para sair do meu jeito... eu já vinha pastorando os funcionários, para a transferências das mudas.) Parei o carro e perguntei a um deles: “Alguém aí, pode fazer um grande favor pra mim? Preciso prestar uma homenagem ao nosso Prefeito que se foi, plantando uma caraibeira do sertão, nesse canteiro, mas não posso cavar sozinha? Alguém cava pra mim?!”. Ora, a resposta veio de imediato: “Na hora, dona!”. Um deles ainda perguntou: “Cadê a planta?”. De dentro do carro, abri o porta-malas, já rindo comigo mesma. Quem me conhece, já sabe que sou um carregamento de mudas! E lá estão: uma caraibeira (Tabebuia aurea), para mim, sempre, ipê do sertão, para eu me lembrar do Juazeiro do Ceará..., dois mini flamboyants laranjas e uma palmeira dracena. Espero que ninguém as arranque. Espero que o ipê cresça...As chuvas de fins de junho e início de julho ajudaram muito a segurar a transferência e já apareceram umas flores...e que lá do Alto, minha homenagem seja bem recebida.


Araceli Sobreira Benevides


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Arquivo Pessoal da Autora/ Junho 2015








Arquivo Pessoal da Autora/junho 2015