terça-feira, 5 de junho de 2018
terça-feira, 17 de abril de 2018
“alguém
me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”.
Na
época em que TV a cores era um luxo para poucos, em casa possuíamos uma Philco
com um grande botão giratório de seleção de canais, outro para ajustar o a
sintonia e mais outro para brilho e contraste. Era o luxo do luxo...O lugar
exato da televisão era o espaço debaixo da escada, sob uma mesinha de madeira
revestida de mogno, combinando ainda com o design
do equipamento. Quase sempre na mesinha da TV e a na que ficava ao canto da
parede, havia a combinação das toalhinhas de crochê, feitas pelas mãos
delicadas de minha mãe, durante o horário de almoço do trabalho.
A
programação tinha horário exato para começar, mas as manhãs eram recheadas de
desenhos, muito desenhos...e outros programas infantis, como filmes, que
iluminaram ou alteraram completamente a percepção de mundo de uma geração que
cresceu entre 1973 e 1979.
Minha
mãe saía muito cedo para a empresa. Atravessava a cidade em uma lotação,
geralmente lotada...e ia ouvindo o mesmo noticiário todos os dias.
Antes
de ela sair, havia todo o protocolo, para se arrumar, pentear e ajustar a rotina
do dia. Lembro-me bem do pó compacto (Max Factor!), cujo perfume ficava nas
bochechas que iríamos beijar, antes da partida, sempre atrasada, para a firma,
onde era contadora.
Não
tínhamos vitrola (meu sonho de infância!) e o rádio era aquele tão comum à época:
de pilha, azulzinho, com uma antena curta que pegava a frequência AM, numa
chiadeira horrível...ouvir música era uma tarefa difícil para esta que se dirige
ao leitor, nesta data de hoje.
Então,
era parte da rotina da criança que um dia eu fui, ligar a TV, às seis da manhã,
para ouvir MPB, principalmente samba, enquanto a programação, de fato, não
começava. As faixas coloridas matizando a tela. Muitas vezes, ainda pegava o
locutor anunciando o prefixo com as informações gerais do canal sintonizado. A
partir de então, tínhamos uma hora exatamente de música. Muitas vezes, bossa
nova, samba de raiz e os temas das novelas em voga.
Havia
uma mania silenciosa entre as vizinhas: puxar a cortina, abrir a janela (para
entrar o ar puro!), e varrer a calçada. Uma vigiava a outra, para ver quem
punha os pés na calçada mais cedo...e eu, menina sapeca que era, morrendo de
sono, geralmente era a primeira...e ainda tinha a pachorra de ir com a panela
de café para mexer o pó na água quente, bem debaixo da janela, para que o
cheiro espalhasse. Minha mãe que nada acompanhava dessa rotina, sentia o cheiro
do café coado e já sabia que tudo estava pronto: leite fervido, café, pão e
margarina. Quando muito um ovo frito. E lá ia ela, após beijar as filhas e o
filho mais novo.
Eu
ficava com a vassoura na mão, para limpar a sala, ou brincar de limpar a casa,
porque o que fazia mesmo era aumentar o volume da TV, no último alcance, para
ouvir música. Foi assim que cheguei a Dona Ivone Lara, pelas vozes de Maria Bethânia
e Gal Costa, e a um dos melhores sambas que embalaram minhas rodopiadas,
vassoura em punho, na simples sala da Vila Ré. “Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu. Vai
mostrar essa saudade, sonho meu, com a sua liberdade...sonho meu...no meu céu a
estrela guia se perdeu...”
Quando
não eram Gal e Bethânia, era a voz de Bete Carvalho, João Nogueira, Clara Nunes e outras
vozes do Samba...Vez por outra vinha Bethânea alertando que “eu estou aqui, que que há...foram me
chamar...”
E
é assim que hoje abri os olhos, procurando a
estrela guia que foi morar longe... Salve, Dona Ivone Lara... a benção a “alguém [que] me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”.
Imagem: Acervo Pessoal da Autora. 1974, SP - Vilá Ré
quinta-feira, 15 de março de 2018
quarta-feira, 14 de março de 2018
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
No lugar de mãe...para um pai que chora...
Infelizmente, nós, pais, não podemos viver pelos filhos, no lugar deles.
Cada filho toma um rumo diferente daquele que esperávamos.
Pais sonham com a futuro promissor dos filhos.
Pais sonham com as conquistas dos filhos. Muito embora cada pai e cada mãe deseje o melhor para eles, nenhum consegue segurá-los com correntes nem determinar qual a melhor trilha para ser seguida, experienciada ou vivida.
Pais e mães podem se libertar da obsessão do controle efetivo dos filhos para garantir uma caminhada segura e tranquila.
Já os filhos precisam e devem sofrer. Precisam e devem viver desafios que os tornem maduros e seguros de si.
Sofrimento vem. Lágrimas virão. Escolhas trazem suas próprias consequências. Histórias de vida são tecidas por trilhas. Pais e mães viveram suas trilhas. Cada um chegou a ser o que é, independente daquilo que seus próprios pais sonharam. Entre abraços, beijos, cuidados, comidinhas especiais, quartos limpos, mesada, não há como evitar a violência, a falsidade, a dor e as lágrimas que a vida produz.
Ótimo mesmo era ter um mundo cor de rosa e iluminado. Porém, isso não existe na vida real. Sem sofrimento, nossos filhos não saberão se defender. Se cada um levar para o mundo a lanterninha que cada pai e mãe (ou avó, avô, responsável, como convém ao mundo de hoje) lhe deu para se orientar na vida...a própria corrente da vida traçará os percursos adiante...
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| Arquivo Pessoal da Autora. |
quarta-feira, 8 de março de 2017
O que será que comemoramos?
Será que temos o que comemorar
no dia 08 de março? Porque, quando olho para a luta coletiva das mulheres homenageadas
com a data, não vejo tanta mudança assim. Claro, há tecnologias e desenvolvimento
que não havia naquela época, mas bem ali, logo ali, tão perto, as marisqueiras,
mulheres do campo, as meninas da África, da Índia, do Paquistão, da rua, da
beira-mar, das clausuras trabalham de sol a sol, são impedidas de estudar, de
trabalhar (enquanto profissionais, porque trabalho é só que todas fazem), são
mutiladas, queimadas, silenciadas, torturadas.
Uma trabalham em nome de Deus
(servas sem remuneração), outras, trabalham em nome do corpo (as escravas),
aquelas ali trabalham em nome dos filhos que estão em casa à espera de um prato
de comer (muitas vezes, um prato mesmo). Milhares, como eu, trabalham para
compartilhar com os parceiros uma rotina cruel e desumana, quatro mãos a
contar, mês a mês, o que não vai sobrar nunca, para as férias tão merecidas e
para a aposentadoria cada vez mais longe.
Será mesmo que temos o que
comemorar no dia 08 de março? Eu. Eu mesma, todinha em minha alma
questionadora, olho meus rastros e me pergunto: “Que mulher sou eu neste mundo
onde minhas irmãs se perdem, das seis da manhã até quase meia noite para dar
conta de um cem número de tarefas que não se acabam nunca?”
Sou um ser coletivo, mas vejo
tão perto de mim, a diarista que me acompanha há anos nessa luta diária, não
poder trabalhar, porque a creche onde a filha de quatro anos estuda (bem ali em
Macaíba) não tem mais o período integral. Ainda ontem, ela deixou a filha na
casa da madrinha, para poder trabalhar...ninguém
pode se dar ao luxo de estudar, quando a mãe precisa ajudar em casa!
Rapidamente, vivi os tempos de infância,
quando minha mãe nos deixava sozinhas em casa, uma com seis e outra com cinco
anos, porque morava sozinha em São Paulo, sem marido, sem família e precisava “dar o que comer para as filhas!”
Do muito que se pode comemorar
com rosas, mensagens coloridas, amáveis, eternas, suaves como os tapas, os
murros, a pele manchada de roxo (das tantas quedas pela sala, esbarrões na
escada, tropeços nas entradas dos quartos), tudo não diz nos cartões, posts e reportagens o quanto ser
mulher é sublime, heroico e transformador. De manhã, lágrimas nos olhos, à
noite, sorrisos e alma escondida, como a lama que chega nas enchentes e que ela
precisa empurrar casa afora, com um rodo.
Que conquistas são estas a
comemorar? Como muitas mulheres professoras, não podemos apenas receber as
mensagens e ir pra casa de coração sereno. Porque no fundo, ao olharmos ao
lado, o fazer docente não atinge inúmeras mulheres que não leem, não escrevem,
não podem ler, não podem escrever. É proibido. É pecado. É perigoso. Não, não
estamos mais na Idade Média. Não mais. Porém, a escrita não está na vida de
muitas mulheres ou, quando está, faz parte de uma ideologia estúpida e
instruída para ler o que o pai, o marido, o homem diz que é para ler ou
escrever. Os desígnios de Deus não podem atingir a mulher que estuda. O melhor mesmo
é que ela fique cega, às cegas. Tateando em busca do tal príncipe encantado.
Estou sendo cínica. Pode ser também uma princesa...mas a ilusão do amor eterno
não se acaba com a madrasta malvada bem pertinho da TV e do celular, dos toques
do teclado, das conversas pelo Skype e outras mídias
Por que comemorar o dia 08 de
março? Logo ali, bem ali, na beira mar, a bandida, de saia curta, top e
maquiagem engoliu os olhares sacanas de quem a culpa pelo estrupo, pela passada
da mão (nada boba...) e, se ela grita, denuncia, é vadia, “a serpente que provoca” o homem. Na delegacia, vomitam olhares,
críticas e culpa: “Quem procura, acha!”. “Não
quis ser livre? Agora, toma!”.
E como toma a mulher que
comemora o 08 de maio! Toma nas costas, no bolso, nas mãos...e nem adianta
esconder com esmalte e batom, a nudez da opressão não se esconde. É hora de
sair correndo para o trabalho, e o arroz não está sequinho, a carne (quando
tem!) não pegou o tempero direito e se bobear, sai tudo queimado. Um menino
amarrou com um nó o tênis com luzinhas que piscam. A outra menina copiou da
internet o resumo para entregar na escola. “Sábado
que vem eu corrijo, filha!” e nunca mais o sol bateu naquela plantinha já
feia que apodrece na mesa da sala.
Não dá para abrir mão do voto,
da licença-maternidade, do trabalho e do salário (nada igual) ...Mas se põe o
peito pra fora, o mundo grita: “saía com
uma mamadeira, está se expondo, está me constrangendo com a boca dessa criança
chupando um peito desses!
Não dá para abrir mão do salto
alto, dos cabelos retocados e alisados (cachos
não combinam com você? Você tem rosto pra cabelo liso, hehehe!), mas a
beleza fica para trás do primeiro tanque, da primeira pia, das fraldas cagadas
para trocar! “Quem pariu Matheus que
balance!”. E se não quiser parir?! Não
pode! Porque parir é um ato divino! “Ser mãe é padecer no paraíso!”...Foi abrir as pernas, agora, aguente! E o
Deus branco vem lá todo firme a condená-la a trabalhar eternamente com o suor
derramado nas faces pobres, abandonadas, de cútis borrada, pelo rímel que não
suporta o peso da Terra nem da bolsa sobre os ombros.
A bolsa pesa. É a marmita.
Como vi minha mãe com uma marmita na bolsa. Ou pegava ônibus ou ia de lotação.
Nada mudou de 1976 para cá. Ainda há quem belisque, quem aperte, e quem não
suporte o membro exposto na multidão dos transportes públicos. Ah, foi sem querer!
E as guerreiras, infames,
desalmadas, aladas, modernas, religiosas, putas, professoras, mães, tias,
primas, sogras, noras, terroristas, mulheres-bomba, soldadas e sempre mulheres,
mas sempre mulheres continuam brigando com o relógio, com as datas (muitas
esquecidas!) e este 08 de março, que não pode passar incólume.
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