terça-feira, 30 de junho de 2009


Este poema está no livro "O Chamado ou um cântico para a liberdade" (SCORTECCI, 2008). Título imenso para registrar "o chamado" para a vida, recebido após uma longa caminhada que deixava de lado alguns sonhos possíveis.





O balé das roupas no varal
sempre atraía meus olhos desocupados
Era como folhas num vendaval
Presas em fios bem amarrados.


E mais adiante as lavadeiras
de baixo do sol escaldante
torcendo, batendo nas carreiras
onde a sujeira fazia-se impregnante.

Eram mãos engelhadas e sofridas
que padeciam sob o sabão,
que esfregavam as encardidas
peças do patrão.

Dia a dia naquela sina:
lavar, bater, ensaboar e estender.
E meus olhos de menina
fitavam sem compreender...

A rotina de sempre estar ali
à beira do rio, cantando.
Tendo a vida a se diluir
como as bolas de sabão que vão voando.

E o vento a levar as roupas dali,
rolando-as no espaço
Com meus olhos a percorrer o vai e vem
das lavadeiras nos seus mesmos passos.

Em 26/10/87

6 comentários:

Mulher na Janela disse...

um poema límpido como essas roupas em balé...
lindo!

beijos...

Doces Deletérios disse...

A imagem casou perfeitamente com o poema e o versejar bastante leve. É tudo lindo aqui!

Gosto em especial dos poemas sem "firulas" (como este), porque parecem representar um certo fluxo de pensamentos.


Beijos!
www.lizziepohlmann.com

Francisco Sobreira disse...

Cara Araceli,
Muito belo poema. Chamou-me a atenção o emprego da rima entre os primeiros e terceiros versos e os segundos e os quartos. Mesmo feito em 1987, louvo a sua "coragem" de utilizar um recurso que há décadas foi abolido da poesia. E que bela foto! Um abraço.

Pedra do Sertão disse...

Olá, Iara, Lizzie e Sobreira,

Aqui trago o pensamento de algumas décadas...um ritmo que lembra como eu aprendia a tentar dizer o que via...esse poema foi imaginado quando em viagem pelo sertão da Bahia ao lado de meu pai... Rabisquei algo em um pedaço (litaralmente) de papel e guardei...No mesmo ano, viajava para Juazeiro do Norte/CE e me lembrei da imagem que guardara na mente (bem parecida com a da foto). Pena que na época não tinha uma digital para captar o momento!!! Em 2001/2002 (não lembro bem) uma professora de uns de meus filhos fez um belíssimo trabalho com esse poema...foi quando o resgatei de novo...

Liliane disse...

Muito lindo seu poema...
E é de uma sensibilidade...
Parabéns professora pelo seu trabalho!

Liliane disse...

Lindo poema!
De uma sensibilidade maravilhosa.
Beijo.