sexta-feira, 12 de junho de 2009

Rédeas - Afinal é dia dos namorados!


Amor indócil este meu,
nasce como água de fonte:
corrente livre,
alargando margens, caminhos, regatos antes secos...

segue em frente, sem barreiras
ignorando paisagens, pontes, travessias.

mas esbarra em teus olhos castanhos... quietos, arredios.

foges para teu mundo isolado...
desconfiando dos meus sonhos, dos meus dons, do meu caminho...

também esbarro nos teus olhos...sou inflexível em meu amor sem amarras.

registro em mim teu medo, tua história
e nem sei dos rastros que já deixastes em minha estrada.

teus modos insinuam tua dor, tua ânsia.
e queria (quantas vezes pudesse) abraçar-te, alcançar-te em alma, sonhos.

abrir uma porteira entre meu mundo e tuas paredes.

Às vezes, de leve, de mansinho,
seguro tua mão forte... também seguras meus olhos úmidos, meu amor em cavalgada,

mas tens de ir: sempre é cedo para um laço,
sempre é tarde para a água que corre livre.

no canto dos teus olhos vejo as marcas, os traços que não queres que eu veja.
Leio almas: as marcas aparecem em plenitude.

meu amor indócil não descansa,
é livre, amplo,
perdido em mil sentidos: só precisa de ti!

sábado, 6 de junho de 2009

Dia Mundial do Meio Ambiente e os mini flamboyants do Jardim de Araceli*


1005 sementes de mini flamboyants distribuídas entre 04 e 05 de junho... na esperança de quem as recebeu possa cultivá-las. Uma bela turminha ficou responsável pela distribuição, crianças amigas que entenderam a mensagem: "árvore um presente para a vida"
Fica o recado: quem recebeu, depois diga o que aconteceu com as sementes... com as belas flores que irão iluminar os jardins de Natal e Parnamirim.
* imagem: Google





quarta-feira, 3 de junho de 2009


uma mente pacífica

conduz mudanças para vida ...


onde ouvi isso?

no impacto, me pergunto:

que mudanças minha mente irá conduzir?


Só vive em tumulto, rebeldia,

campos minados,

terras distantes,

intranquila

questionadora

sempre alerta!


*foto: arquivo pessoal - Tibau do Sul/RN férias de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

Alianças


Para Andréa




Tudo era para sempre:


a cabeça fria, o vestido solto,

sandália de dedos, os pés no chão de areia.


Tudo era para sempre:


as mãos dadas, os poemas lidos ao pôr do sol,

o corpo morno estendido na rede, o vento à beira mar!


Tudo era para sempre:


nossos sonhos, os gatos, os quadros,

a vitamina, os biscoitos, meu bordado, o futebol.


Mas o "prá sempre" sempre acaba:


resta um sorriso doce, as tardes longas diante do livro aberto.

A imensidão do mar, chegando em rosas no quadro em minhas mãos.
* Imagem: Pesquisa Google


sábado, 2 de maio de 2009

Os xales [lembrando que nesta semana é dia das mães]

O tear batia para frente e para trás. As mãos ágeis cruzavam as linhas como quem trama os destinos: apertando aqui, soltando ali; colocando um fio prateado nessa parte, juntando um punhadinho de linha mais à frente; outra laçada, um nó e pronto, tava feita a vida, tava feito um xale de noite.
Em nenhuma parte dele ficavam os vestígios das mãos que o tecera. Em nenhuma franja denotava o árduo trabalho das mãos enrugadas e calejadas a gerar as tramas.
Era um xale para a noite. Preto, comprido, quente. Feito a noite, feito o destino, feito a vida, feito o abraço. Veio ao mundo com um irmão gêmeo, como distinção só as tramas na vertical.
O marido trouxe. Um para ela, a mulher, outro para a filha, o orgulho. Destinos tão diversos.
Porém, cada xale era único, era um, era uma marca. A única semelhança: xale para a noite, para o brilho. Para a névoazinha que cobria a vastidão da Serra em noites de São João.
Em uma, o xale vestia para as missas, os encontros da igreja, a missa do Galo, da Páscoa, da comunhão, em dias de luto, de dor, de guerra.
Em outra, o xale vestia para os bailes, para as despedidas, cantorias na madrugada, para o orvalho do beijo ao amanhecer.
Por duas gerações inteiras os xales sobreviveram. Um ficava no velho baú ao pé da cama. O outro, dobrado no cabide colocado no escuro guarda-roupa. Vidas distintas. Mulheres distintas.
Em uma o vestígio da outra: olhar seguro, ombros delineados, pernas torneadas. Em ambas, o xale caia com ar de leveza.
A vida corroeu-se aos poucos, levando graça, beleza, olhares alegres e sonhadores. O xale de ambas permaneceu. Cada um intacto. Fibra tecida sem vestígios de dor, abandono, lágrimas ou solidão. Seda entrançada de fios pretos e prateados, franjas balançando ao movimento. Na cadência das estrelas, enfeitando a vida. Xale para festa: felicidade resguardada pela fragilidade de linhas seguras. Xale para a fé: vínculo guardado com coisas eternas, marcado pelas lágrimas e contas rezadas.
As mulheres se foram, mãe e filha levadas pelo tempo do século passado. Os xales ficaram em mãos diferentes, distantes um do outro, sem a renovação pela vida-dança ou pela oração-sofrida.



* Publicado pela primeira vez em
www.anjosdeprata.com.br. Aqui, com pequenas alterações no título e no final.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pensando em sonhos II




O sonho de ter todas
As gavetas em ordem,
Todas as prateleiras, armários.

O que é azul com o azul.
O que é livro com os livros.
O que é dentro, todo dentro.
O que é de fora, todo olhos.

O sonho de ter o tempo
Em ordem, numa ordem: não finito.
Tempo com as crianças,
Tempo para as crianças.
Tempo com o homem,
Tempo para o homem.
Tempo extra, incomum, continuum, desacelerado!

O sonho de ter tempo para tudo:
Roupa, corpo, casa, comida, jardins e carros;
Livros, pensamentos, sonhos, música e teatro: minha voz!

Sonho, fenômeno longínquo,
Nuvem baixa, neblinando
Nas serras de minha alma inquieta.

Sonho, frágil sombra,
Sem profundidade, águas rasas
Sem reflexo, nem voz (só o eco!).

Há sempre que se acordar
Diante do tempo que urge,
Na fila, no congestionamento,
No calor, nas distâncias.

Assim como há de se sonhar
Com o tempo de ser plena,
Flor, insana,
Coragem e luz.

Para ver o jarro florido na janela,
Os filhos crescidos no mundo,
O homem deitado numa cama, para o sono tranqüilo...

[E quem disse que as mães dormem sonhos tranqüilos?]



Foto: arquivo pessoal, tirada por Caio César - Exposição "Dino" - OCA, SP, 2006