quinta-feira, 19 de junho de 2014

Serra do Araripe

O sol azul iluminou
verdemente as samambaias 
vermelhas das Serra dos Peixes

Uma mão amarela
colheu a flor branca
sem sentir o perfume
dos coqueiros alados...

As nuvens tristes choraram
No campo de milho...
Quem dirá não haver
Vento e tranças nas espigas?


In: BENEVIDES, Araceli Sobreira. O chamado ou um cântico para a liberdade. 2 ed. São Paulo: Editora Scortecci, 2008, p.91.


Vendo a imagem da Serra do Araripe num post de minha prima Fernanda Menezes, deu saudade do mês de junho no Cariri. Fui buscar no baú de meus escritos uma forma boa de matar a saudade das terras que emocionaram minha alma!

Arquivo pessoal de Fernanda  de Menezes Sobreira

quinta-feira, 27 de março de 2014

Um poema para Caio...






Poema presente na Coletânea "15 Poetas do RN" - menção honrosa no concurso Luís Carlos Guimarães/ 2014 - Fundação José Augusto/Secretaria Extraordinária de Cultura do RN.

Arte de Emanuela Medeiros



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

POR QUE AMO LER

 
(Depoimento em forma de poema)
 
A palavra que vem do Outro...
A enorme procura.
A ânsia de viver outras vidas,
de não ser eu mesma,
mas, ao mesmo tempo,
ser, sem ser a mesma...

Palavras outras, palavras minhas,
substanciadas em conteúdos
devorados, trocados,
sonhados, re-colhidos...

Um amor despertado em
páginas-mundos agitados,
removidos,
rememorados,
transportados para outra esfera,
que me trazem para o aqui,
o agora e o porvir, também.

Enxergar melhor o que em mim é o mesmo,
o diferente, o disperso, o ausente, o silêncio.
Em lendo, emergir na voz interna que grita:
“Corre, vá, mundo afora...”
Embora esteja presa neste corpo que apenas gira a página.

Em lendo, transformar-me em tudo.
Embora os olhos se retraiam, míopes, cansados.
Outros olhos, não mais perdidos:
Só brilho, encanto, mito.

E as palavras?
Lendo-as, torno-as minhas,
Recebo-as em pensar, em colheitas fartas,
Em compartilhar.
Escrevendo-as, retiro de mim o que me doaram.
De um jeito entraram,
de outro jeito saem: fluidas, mágicas, plurais em tom, rimas, canto e coro.

Lendo-as, relendo-as,
um amor eterno, juvenil,
antes mítico, hoje meta.

Devorar o mundo das letras,
Sendo voraz nessa fome sem fim: ler, ler, ler!

Publicado inicialmente em:

http://alb.com.br/arquivo-morto/linha-mestra/revistas/revista_04/depoim_04.asp.html

Imagem: Arquivo Pessoal 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Arisco


O cisne branco que não veio passear no meu lago naquela tarde, tirou a tarde para se esconder por entre as folhas verdes e largas dos arredores. Passei a tarde sentada, jogando pedrinhas na água escura sem saber como alcançar a glória das asas abertas, prontas para a dança ao ocaso. Os fones no ouvido me faziam um ser do tempo real, a imaginar o brilho laranja por sobre as águas do lado onde sempre me escondo. Tudo acima de mim tinha a mesma rotina: o lago, meus sonhos, o céu alaranjado de raios e sombras. Faltava apenas o farfalhar das penas brancas a brincar com o vento solto. Comigo era sempre assim: a rotina do inusitado.

        "Hoje eu quero vê-la me achar - o que tem de novo para largar o mundo, ouvindo aquela música          que não para? Já fiquei tonto demais para rodar na marola dessas águas...Quero sentir de                  perto a cara feia do caçador de verde que não atira nunca, com medo de errar!"

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Indo para casa



Naquela tarde, tive que subir a enorme ponte que separava os bairros principais da cidade. Havia lavado roupa a tarde inteira. As mãos permaneciam brancas, sem viço algum. O sabão comia a pele já ressecada de anos de tanque. O rio estava marrom. A chuva de toda tarde misturou restos de lixo, gravetos, troncos, folhas e uma imundice que não cabia no juízo de pessoas sensatas.
Amanhã, é dia de ir para dona Lúcia. Gente que não sabe o que quer! Uma hora troca tudo, noutra hora, não tem nada para lavar! Bom para mim, só assim, polpo minhas mãos! Tinha medo de cair daquela altura, só andava apoiada no cimento frio. Tentava sempre olhar para frente, para os carros acelerados e sem rostos que passavam por mim. Às vezes, ainda conseguia enxergar um rosto triste ou um jovem dormindo com a cara grudada no vidro dos ônibus que se juntavam antes de passar para o outro lado. Sempre mandava os olhos para algum lugar distante, nunca para a água imunda que descia pela cidade. Brutalmente, naquele dia, mirei as águas sombrias.  Tinha uns cinquenta metros entre a ponte  e o meu barraco, quando vi a mão presa nos troços do rio.  Não tinha ninguém naquela hora e respirei fundo tentando pensar como alguém poderia se jogar num rio sujo como aqueles. Era mesmo o fim do fim, morrer na mais pura lama!
   







Imagem: Pesquisa Google: http://ajornadadaalma-estudosjunguianos.blogspot.com.br/2010/09/pontes-na-pintura.html

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Poema IX



No momento eu só quero ser feliz.
Como dizer em palavras
que estou plantando 
um mundo melhor para meus filhos?

Procuro em minhas perdas
um mover-se mais seguro...
mais ainda sou "metamorfose ambulante",
querendo esquecer das certezas,
das verdades únicas, do imutável...

Vivemos diante de situações inéditas,
algumas mutantes;
centenas, previstas.

Os poetas não se decidem
Os padres não mais orientam
As vozes que mais se calam!

Mesmo entendendo o que me diz,
fixo meus pés no chão duro...

Como me alcançar? Lá em cima tudo é longe.
Como me soltar? Se fico livre, voo sem direção...

Quem vem para segurar? Lá do céu
despenco feito a pipa
que o menino
          não controla.


§  §  §


In: BENEVIDES, Araceli Sobreira. O chamado - ou um cântico para a liberdade. 2ª ed. São Paulo: Scortecci, 2008. p.36.


                                                                          §   §  §






Imagem: Pesquisa Google: