domingo, 6 de setembro de 2009

Saciada*




Corri para baixo de


um toco aberto


nesta mata densa.


Trago na boca


restos do sangue lambido


do bicho que engoli


enquanto tinha fome.


Escondo-me. É hora de dormir.


Não tenho medo


de me encontrar


cara-a-cara com o inimigo.


Saciei o ronco dentro de mim.


Guardo o olhar altivo,


arredio, desligado


da noite.


Estratégia de liberdade.








* Ainda pensando em felinos...






** Imagem => Pesquisa Google

domingo, 23 de agosto de 2009

Pantera Negra


Quantos passos

dei em volta deste campo

fechado?

Rosnei, voltei,

ralei meu pêlo arrepiado

nas cascas das árvores do velho bosque.

Tinha pressa, tinha ânsia,

minhas narinas abriam-se,

fungando ares quentes.



Quantos passos ainda dei nessa espera?

Idas e vindas que fazem o que sou:

pantera negra à espera do meu caçador.



(Ele se demora,

prometeu em seu olhar de homem perdido

e alucinado...caçar-me em noite de lua.

Onde está, então?)





Imagem => Pesquisa Google: arquivosdoinsolito.blogspot.com/2008_09_01_ar...

sábado, 15 de agosto de 2009

Olhando Fortaleza e o belo Bosque de Letras com olhos do Outro: olhos de quem tem um passado, uma memória, uma história... múltiplas identidades.


Nas excursões de um dia no Bosque a vista se perde. São incursões de uma alma cheia de espanto. Evasões desapercebidas pelo tempo atual.


Fixando mais de perto (ainda sou míope!): reconheço mundos, todavia não pertenço a nenhum.


O que vejo e meus olhos não abarcam? Espaços ocupados, mangueiras derrubadas, salas agora com nomes (mas sem rostos claros, definidos, são todos indistintos).


O que vejo e meus olhos não definem? Os cabelos brancos com áurea e sorrisos juvenis tomando conta dos cantos e recantos de meus esconderijos: minhas terras não descobertas, nunca reveladas (ainda estão guardadas nos ferros que seguram a Ponte, nos sonhos enferrujados, nas fugas da inquietude de minha alma arisca)


O que vejo e meus olhos não dominam? Os vincos nos olhos da bibliotecária, dos náufragos, gigantes, ausentes, lunáticos, vendedores de livros fantasmagóricos que passam com jeito de quem fica...fartos vincos, amarelados vínculos...


O que vejo e meus olhos não ajustam? As paredes inexistentes da cantina da Cultura alemã...meus muros erigidos quais castelos (Fortalezas?!) tão frágeis, desaparecidos numa morte sem despedida, lágrimas e murmúrios) (dos que um dia defenderam as mangueiras do Bosque de Letras...quais cavaleiros dos contos de nossa história de andantes –seres encantados das Letras)


Um viva aos destemidos! Um viva aos que, de fraqueza, se escondem.
Aos que, de medo, se recolhem (levando os rastros)
Aos que, de insanidade, se enfrentam (com leves vestígios)
Um viva aos visitantes, presos a documentos...
Aos estranhos que nada vêem.
Aos novos alunos – ainda não sabem!
Aos velhos alunos - ainda não esquecem!
Aos que não viveram, são só passeantes.
Aos que viveram, meras lembranças...
A mim – viajante temporária (perdida, inquieta, assustada com os estragos do Tempo).


sábado, 1 de agosto de 2009


Leves vestígios


O homem de chinelo
aparece no meio da estrada,
veste algodão cru,
corpo esguio,
olhar sereno.

Parece dominar a natureza.
Inclui simplicidade
no caminho,
andando, deixa marcas
atrás de si.

Solitário ente
Perdido entre árvores secas,
Trilhas poeirentas.
Por pontes passa,
carregando sua dor.

Na beira d’água
deixa outra marca.
Beijo selado na areia.

O homem de chinelo
trabalha de sol a sol,
constrói mundos,
novidades, sonhos.

Tão leves, tão frágeis.
No fim, tudo desaparece.
Fica só a marca
dos longos pés no chão de terra.





PS: Esta poesia faz parte do conjunto que recebeu "Menção Honrosa" no IV Concurso de Poesias Zila Mamede 2008

* Imagem: Pesquisa Google => www.portinari.org.com (Pés - Cândido Portinari)


sexta-feira, 10 de julho de 2009

(Lembrando Maranguape...)







imagem: upload.wikimedia.org/.../180px-RAJADA.JPG





Há samambaias vermelhas enfeitando
Encostas das Serras de guerreiros.
Há ninhos pretos, nuvens baixas, mar distante...
Graúna cantando também há,
E já era cidade noite com tempo de chegar...

Há um rio cortando veias, limpando a paz...
Pedras no vão, no chão, no coração também há.
Nenhum sonho, nenhum desejo, noites mudas.
Há afeto, há carinho, há emoção
Mas onde está a POESIA dos meus dias de luto?

Araceli
Em 29/05/1989*





*Outro poema que está no livro O Chamado ou um cântico para a liberdade (SCORTECCI, 2008 - 2ª ed. !!!)

PS.: Pensei que fosse fácil encontrar uma imagem de uma samambaia vermelha. Encontrei uma, mas não parecia em nada com a que eu vi no passeio à Pedra Rajada, na cidade de Maranguape/CE, em 1989. A visão lá de cima é de matar!

terça-feira, 30 de junho de 2009


Este poema está no livro "O Chamado ou um cântico para a liberdade" (SCORTECCI, 2008). Título imenso para registrar "o chamado" para a vida, recebido após uma longa caminhada que deixava de lado alguns sonhos possíveis.





O balé das roupas no varal
sempre atraía meus olhos desocupados
Era como folhas num vendaval
Presas em fios bem amarrados.


E mais adiante as lavadeiras
de baixo do sol escaldante
torcendo, batendo nas carreiras
onde a sujeira fazia-se impregnante.

Eram mãos engelhadas e sofridas
que padeciam sob o sabão,
que esfregavam as encardidas
peças do patrão.

Dia a dia naquela sina:
lavar, bater, ensaboar e estender.
E meus olhos de menina
fitavam sem compreender...

A rotina de sempre estar ali
à beira do rio, cantando.
Tendo a vida a se diluir
como as bolas de sabão que vão voando.

E o vento a levar as roupas dali,
rolando-as no espaço
Com meus olhos a percorrer o vai e vem
das lavadeiras nos seus mesmos passos.

Em 26/10/87