domingo, 26 de fevereiro de 2012

Palavras ...

O mundo das idéias livres...
tais quais são pensadas,
moldadas...

Verdades? Palpitações.
Mentiras? Esferas.

Confronto concreto dilapidando
mentes,
aclarando fontes,
obstruindo estantes.

Diálogos ampliados,
resumidos, trocados,
mal compreendidos.


Esticados ao máximo
de suas línguas,
bocas impotentes.

Para a clausura eterna
do fogo que as lança
ao mundo do imaginário.





Do “Livro das Palavras”. In: O Chamado ou o cântico para a liberdade e outras poesias. 2ª. ed. São Paulo: Editora Scortecci, 2008.





     Imagem: arquivo pessoal

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Adieu mon coeur

                                                                                         (A dor de Irene lembrou a dor de minha mãe!)



Naquele dia as lágrimas misturavam-se com as pontas dos dedinhos macios a tocar-lhe o rosto. A criança mantinha os olhos vivos em direção aos olhos da mãe. A vontade era nunca acabar com aquele momento único! O bico do peito inteiro na boca rosada, sugando o leite morno. A pele subindo e descendo, no ritmo das lágrimas e da força dos beiços infantis! Quisera nunca existir o trabalho! Lembrou-se da avó a lembrar-se das palavras da nega Severina: "Fui sua ama de leite! Quando os peito de D. Amália secou, vim resolver com o meu, esse é o meu orgulho"! Hoje não há uma mãe de leite e é necessário ir para o trabalho. Lá fora, o dia azulou-se em promessas de fila de ônibus, caras fechadas, zoada interminável das máquinas de costura. Mulheres inchadas nos pés, mãos rápidas subindo e descendo os tecidos de todos os tons. Que bom que você voltou! Um uniforme azul grudava no corpo aumentado pela gestação.Os olhos voltavam-se a todo instante para o relógio de pulso.  Nunca fora de negar trabalho, mas agora doía só de imaginar os olhinhos redondos segurando uma maldita mamadeira, quando ali, a roupa molhava encharcada pelo leite que descia na pia do banheiro!


*   *  *



Imagem: Pesquisa Google: Pintura – Ama de Leite (1879), de Berthe Morisot

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Papel de carta




O cheiro de café no quintal
lembra a tia alegre
que amarra uma fita
branca nos longos cabelos!

Os olhos fechados guardam
o cheiro...
na raiz do cabelo a dor
das mãos que apertam o nó!

Feliz a xícara que alivia
a cabeça erguida
na rua acelerada! Uma branca fita balança no ar!







Imagem: Pesquisa Google: http://humordemulher.wordpress.com/sarah-kay-sucesso-nos-anos-80-2/

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

BR 101 indo pra Recife


Ô saudade de meu pai...
saudade quase sodade...
principalmente agora que o sol
atinge a vista, curtindo a carne da gente
lá pelas quatro horas quando a vista cega no horizonte, pelas bandas de Recife!

Era assim que ele apontava o por do sol no fim de ano!

Era assim que ele ia embora pro Sul, ver o Rio de Janeiro,
na boleia do Mercedes,
para voltar só no Natal!

Lá vai o velho caminhoneiro, cantando:

"Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim,
Que vivo doido a sofrer"

Ô saudade de meu pai em pleno brilho da BR 101
onde a vista arde e os olhos choram!







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Imagem: Arquivo Pessoal - BR 101 


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domingo, 25 de setembro de 2011

Por quem transborda minha alma?

Esvaziar a alma
Introduzindo nela um novo.
É preciso um ritual,
Uma passagem...
Deixar sair tudo,
Abrindo caminho
Para o susto,
O espanto...

Esvaziar a alma
Abrindo para ela um novo espaço.
É preciso o silêncio,
O compromisso,
A pergunta fundamental:
O que eu quero pôr nessa alma?

Amor?
Deus?
Vidas, sonhos, imagens?
Reminiscências, morte, canto?
Minha casa no sertão, bois à sombra, poço profundo?
Tudo ou Nada?
Vento, terra, olhos, corpos?

Dela tirei tudo e estou nua...

Preciso de um coração novo,
Preciso de uma morte serena,
Calma, intraduzível
Para chegar até mim
E me ver de fato...

Alma sagrada, indelével, perdida em sonhos, mitos, arranjos!
Solta no além, sólida em fé, arraigada feito raiz de jequitibá...


                                                                               Em algum dia de 2009.


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Quadro: Picasso - Fonte: Google Imagens




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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A formiga e a cigarra!


Quisera eu deixar
de ser formiga,
poderia cigana virar,
cair na vida...
Ser só gente,
pensar nuvens, mundo, ser só ponte, fluido
atravessar ruas sem sentido.
Quisera eu ser inocente,
leve, luz radiante,
tempo ausente
ao luar do sertão, fina chuva –
sem nada na mão...
Quisera eu cigana ser,
cantar o dia, viandante,
flutuar na vida, espairecer,
somente feliz amante
a dormir no inverno, tranqüila
tal qual uma menina.

                               Em 05/08/2007. 




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Imagem : Pesquisa GOOGLE IMAGENS : http://www.qdivertido.com.br/verconto.php?codigo=9