segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


no vasto deserto

de minha solidão

existe uma casa bem perto

do infinito


no rastro do deserto

de minha solidão

existe um infinito bem perto

de minha casa


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Eu sou uma árvore solitária
dando sombra a quem quer ficar
dando fruto a quem quer provar.
Plantada estou, nessa terra imaginária.

E estendo os braços para o amigo vento,
nem vejo as guerra, as dores, o vozerio,
fico aqui, triste com meu lamento
profundo de solidão, debaixo do sol arredio.

Solitária árvore verde, aqui estou,
Minhas folhas trocam-se,
Minha casca enruga-se,
Não tenho para onde ir, sei só o que sou:

- Árvore jovem, flor que sempre renasce
com o vento, a chuva, a aurora...
E mesmo que nada se plantasse
Ainda ficaria a solitária semente germinadora...


03.setembro.88

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Poemas premiados com Menção Honrosa no IV Concurso de Poesias Zila Mamede

Paisagem de meus olhos



O sertanejo:
duro, moreno, olhos cegos de tanta luz...
Boca moscando um quê de nadinha,
cuspindo seco.


O sertanejo:
vivente acordante.
Trabalhador de correias,
construtor de açudes
sempre secos, feito as
pontas de galhos que se quebram na vista dessa estrada...






Canção pra cabloca do meu sertão




A mulher abre a porta,
varre o quintal,
levanta poeira.
À pino está o sol,
o nordeste queima o horizonte,
“quanto vento morno!” –
lembra na rede o homem quente.
Uma sombra nos olhos
Ardem feito poeira do chão de barro.
A barriga inchada do filho descalço
Lembra: “é hora de feijão com farinha”.
“ – Quem vem pra mexer
a panela que entorna
um coração pedinte de sonhos?”






Canção pra nega velha da Fazenda


A negra velha
Ajoelha-se diante do santo.
Põe feijão, folhas de louro,
Rosas, sal grosso.

Pede bênçãos, pede liberdade,
pede vida boa pros netos.
São muitos: negros, mulatos, sararás.
Um quase branco.
“Isso dá vida à vida?”
É sangue negro, sangue grosso,
desce das costas
que a chibata abriu.

A velha negra dorme quieta
tem no colo um pobre ser
e canta firme:

“Vem, meu Deus,
alumiá meu dia,
alumiá a vida,
alumiá meus sonhos!”





Leves vestígios


O homem de chinelo
aparece no meio da estrada,
veste algodão cru,
corpo esguio,
olhar sereno.

Parece dominar a natureza.
Inclui simplicidade
no caminho,
andando, deixa marcas
atrás de si.

Solitário ente
Perdido entre árvores secas,
Trilhas poeirentas.
Por pontes passa,
carregando sua dor.

Na beira d’água
deixa outra marca.
Beijo selado na areia.

O homem de chinelo
trabalha de sol a sol,
constrói mundos,
novidades, sonhos.

Tão leves, tão frágeis.
No fim, tudo desaparece.
Fica só a marca
dos longos pés no chão de terra.




Urgência pós-moderna


Preciso de casas
pequenas
arejadas
insípidas
para sustentar
os pesos
mortos
de meu vivo coração.

Preciso de igrejas,
messiânicas
católicas,
russas e mulçumanas,
para encontrar
um Deus
aberto que abençoe
meus inúmeros
pecados
sãos.

Preciso de gente:
homens,
mulheres,
crianças.
Principalmente
homens que julguem
meus dias inglórios,
trágicos, dramáticos e nulos.

Preciso de fé,
paixão
sexo,
escuridão, mais ainda
de castiçais que se
apaguem ao
encontrar com minha alma
perdida,
amarelada,
imunda,
de solitária transgressões.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

insone



na taça, mergulhada estou.
nada passa
nessa madrugada que chegou.

insone, desamparada
permaneço no ar...

a noite vai - iluminada.
o dia acorda pra me matar.

olhos injetados de um mal que veio pra ficar

sábado, 20 de dezembro de 2008


Deixei meu pai ali bem debaixo
Do pé de cajueiro,
quietinho, guardado
nem parecia mais ser ele
o homem forte, valente
cheio de vida
que conheci um dia.
Deixei meu pai
Ali – junto ao pé de pau.
Um bem-te-vi solto
vem cantar todo dia,
um joão-de-barro levou
sua casa para o cajueiro
e do alto observa a paisagem.
Uma serra imensa,
um cantador de viola,
um canto de paz.
O cajueiro a florir em outubro,
carregar em dezembro,
a guardar meu pai em sua sombra
– como ele gostava
Araceli Sobreira
(lembrando um ano de encantamento de Pedro Feitosa)


.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008




Para Marília, Renata e Rosinha...


Com paixão
com o que nos falta:
a vida,
a liberdade,
o corpo,
a língua,
o riso,
o carnaval.


Com paixão
com o que nos une:
o máximo, as paredes, a estrutura.


Com paixão
com o que nos corta:
a escolha, o massacre, a rotina.


Com paixão
com o que nos define:
o bordado, o toque, o sutil
a dor.


Com paixão
com o que nos cega:
a chuva,
a lágrima,
a verdade,


Com paixão
com o que nos divide:
a razão, o medo, a queda, o pecado, os filhos, a costela...



Com paixão
com o que nos eleva:
as flores, a seda, a estrada do bosque...


Com paixão
com o que nos faz ser:
a renda, a cama, o ventre.


Com paixão
com o que nos faz crer:
a palavra, o pão, o milagre.


Com paixão
com o que não nos deixa viver:
o tédio, a ruga, as ruas, o fogão.


Com paixão
com o que nos explode:
a loucura, os monstros, o lobo mau, o tempo e o espelho...


Com paixão
com o que nos vivifica:
o mito, a fé, o sangue.

Com paixão
com o que nos assusta:
a paixão, o esmalte vermelho,
o olhar profundo, expressivo, inesquecível,
o perfil de um Deus grego,
a vida, o riso,
o carnaval, o vinho,
a carne, a ternura e a liberdade...


Coisas que só existem
em almas com muita paixão!


Em 25.03.06