sexta-feira, 18 de junho de 2010

Transformação


Quebraram-me
f
e
i
t
o

macaúba.


Acharam-me

o c a
de espinhos.


Aventura insana
juntar-me inteira
de novo.


Tornaram-me frutas
espalhadas sob
a sombra de uma

p
a
l
m
e
i
r
a



imagem: Pesquisa Google - timblindim.wordpress.com/macauba/



Parentêses para homenagem especial: "Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e pôr à vista o que está por baixo". José Saramago

domingo, 23 de maio de 2010




Minhas mãos já velhas
e ressequidas
caminham atrás de teu rosto,
distante, assustado...

Não sentem a pele rompida
desejando correr
leves em gestos suaves...

Antes voavam nos balés, nas noites,
perfumadas, incendiavam tua boca
sensível, florida...

Hoje, despertando, vi-as roxas,
fúnebres, velhas...
teu desejo as puseram de lado,
levantam-se só para adeuses!

Pouco fazem, pouco tocam,
mãos, minhas mãos!
julguei-as belas, jovens, sempre ágeis!

Pelo menos lágrimas,
minhas lágrimas,
ainda secam!








Poema publicado no livro "O chamado ou um cântico para a liberdade" - Scortecci, 2ed., 2008.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O conto das quatro Luas


Lua Nova, momento propício para caminhar nos campos, nos Bosques. Uma áurea luz promove o aparecimento dos grilos e cigarras. Enquanto os jovens pássaros se recolhem aos galhos mais altos, Nuara afasta os cabelos negros para trás e finge não estar ali, carregando ao colo uma cesta de pães para os vizinhos de sua casa. É cedo ainda, mas a jovem sente um peso nas costas e os pés já estão molhados de suor. Atravessa o cercado que dá para o sítio das Noras e tendo somente os sons dos pequenos animais para lhe orientar, Nuara sai à procura de raízes para seus chás e preparos. Nuara estava indecisa, havia que escolher uma planta, mas lhe ensinaram que precisava da influência da lua para poder fazer a cura. Parecia que se tornara incrédula para as coisas que deveria acreditar!
“Cadê a planta, meu Deus?” Seguiu um pouco mais, desorientada pela escuridão da madrugada. Cá de baixo das árvores era como se não houvesse mais luz: tudo era inédito e sem rumo. Nuara abaixou-se sob uma grande árvore já seca pelo tempo ruim. Lá estava, haveria de preparar uma mistura bem forte para matar a bicheira de Naninho, filho de Lia, a mulher do apanhador de lenha.


Lua Crescente, Nuara encontrara um novo amigo. Ele vinha ao campo todo mês, trazendo as novidades do mundo de fora. Um dia, ao passar no portão do sítio, a moça pedira-lhe um livro para estudar Ciências. O rapaz rira de sua curiosidade, porém trouxera-lhe um Atlas histórico-geográfico com gravuras e mapas. A moça achou um encanto e passou várias tardes situando-se no Universo, na história. Havia fatos demais para entender e seu mundo de fogões a lenha e rio de pedras quase não lhe davam a chance de captar a essência das coisas dos homens de lá.A lua estava no ponto, dando lugar para o plantio de rosas e acácias... Num futuro haveria um jardim bem ali, perto da cerca para indicar que na casa uma mão suave governava as paredes brancas. Haveria arroz para cultivar no vasto terreno a sua volta.


Lua Cheia ... plenamente mulher, Nuara realiza seus desejos de acreditar mais nos cantos e ditos populares. As maçãs e laranjas completam as fruteiras, deixando as mesas sempre coloridas. Nuara anda a cavalo, nada no riacho, passeia pelo Bosque. Nessa semana, porém, a moça também decide ir à Capital, ver o mundo, as pessoas, as histórias de outras gentes. Dizem que mensalmente as mulheres, nessa fase da lua, tornam-se mais independentes e salientes. Nuara ri por dentro ao ouvir isso. Embora considere haver um pouco de verdade nessa idéia. Rememorando os meses anteriores, lembrava-se vagamente de que nessas luas tanto ela quanto outras mulheres do sítio estavam sempre a discutir sobre alguma coisa.
Em seu passeio pela Capital, além das ervas do Mercado, os livros atraem a atenção da jovem. Ela se põem a namorar as vitrines que à noite estão iluminadas de néon. Já é de madrugada quando retorna num ônibus sacolejante. Nas mãos um livro de Ciências Naturais. Puxando um pouco a cortina encardida do ônibus, Nuara dá de cara com a lua cheia. Na imensidão escura da terra, seu brilho amarelado se estende até longe, indo refletir opaco num açude que já vai ficando pra trás. “Quem determinou que Seu Marquim deveria ter nascido com um olho torto e não ter mulher alguma para lhe velar na velhice enquanto que o irmão, seu Torquato, mulato de cabelo liso tivesse a enorme e sempre cheia mulher para lhe preparar a cama e esquentar os pés?”
Nuara não atina com as coisas complicadas. Em sua simplicidade, define os seres e objetos pela experiência do dia-a-dia. A percepção de quem determina a força e o destino de tudo, é de desconhecimento humano. Para ela, a Lua trabalha nos campos, deixando cheirosa a mangueira carregada de frutos...




Lua Minguante ... os frutos agora estão pontos para as bocas ávidas... é época de plantar os alfaces e derrubar o mamoeiro murcho há algum tempo. “Será que a chuva ajudará a apagar a poeira levantada pela caravana de gente pobre?” Eles andaram quase todo o dia, pediam de sítio em sítio uma esmola, uma muda de roupa, uma rede, uma pousada, uma ágüinha, em nome do padim padre Cícero! No coração havia uma dúvida: ser tão bondosa com esses que tinham fama de pilhar, atacar as plantações, receber e nem agradecer seria tão compensador assim? Mas os velhos desses grupos, de pele tostada e olhos arredondados, sempre traziam-lhe flores de jasmim para Nuara pôr no cabelos negros. Eles sempre sorriam, um sorriso humilde e malicioso, cantavam altos quadrilhas já há muito esquecidas...
Nuara divaga, em sua solidão minguante. Percebe, mirando a luz fraca que cobre seu jardim que as respostas para seus anseios de saber mais estão para além das letras e papéis trazidos pelo amigo da lua crescente. No livro que trouxe da capital, as imagens e fotografias das plantas, raízes e animais não dizem o momento certo de puxar da terra a hortelã de folha miúda que acaba com a dor do estômago de sinhá Nina nem explicar a hora exata que o homem deve sair para caçar o preá para encher a barriga de seis crianças de olhos arregalados e barriga bichenta. Explicações detalhadas de forma e conceitos, mas nada de cheiro de orvalho, pio de coruja, caminhos de mel para dizer que a terra está pronta, a chuva já vem, ou que os pássaros e abelhas começam a aumentar sua família. A próxima lua lhe dirá o melhor momento para completar seu ciclo de curandeira das matas...A Lua mingua um olhar... Nuara sorri, enxugando as mãos nas saias e sai para fechar o portão de sua casa em mais uma noite.


* * *



Publicado em www.correiodatarde.com/artigos/6479

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Imagens: As quatro luas de Jupiter descobertas por Galileu - Pesquisa Imagens Google

segunda-feira, 22 de março de 2010

A esposa virtuosa


A mulher atirou-se aos pés do algoz de seu marido. Subitamente uma força maior a movera de seu lugar sagrado de onde apenas saía para buscar alimento pros filhos. Vivia guardada em seu recanto. O olhar sereno, naquela manhã, cobria-se de lágrimas e poeira ao atravessar o terreno desnivelado da prisão centenária. Horas antes, uma pergunta era feita para o homem que a retinha entre sedas e grandes janelas cobertas de veludo. "Onde estão seus pai e sua mãe que não vem pedir por sua vida"? O homem baixou a vista acabrunhado, sentindo a dor das grandes correntes apertando sua alma. "Há alguém que se importe por sua vida, miserável homem"? A mulher entrara envolta em lenços, deixando revelar somente os negros olhos. Esperava ver os sogros chorando, clamando por piedade. A audiência trazia esfarrapados, delinquentes e loucos e nenhum poderia ajudar o homem condenado à morte. Apertando-se entre malcheirosos, subiu um degrau de pedra, aproximando-se mais e mais do algoz. "Eu dou minha vida por ele", disse docemente, enquanto os loucos riam e arregalavam os olhos, ansiosos pelo fim da sentença. Um riso irônico formou-se nos lábios escuros do algoz. Lá atrás, uma velha encurvada gritou: "Pobre iludida"! Mas quem dera para sofrer pelos filhos raivosos e malcriados, quem perpetuava a sina de pertencer ao homem dias, noites e madrugadas sem fim, feito renegada por guardar as marcas roxas na branca de escrava qualquer sentença de morte era o luxo de lugar guardado no Paraíso. Lá se foi a mulher seguir sua morte, enquanto o homem era liberto de suas correntes. As portas mornas do Inferno abriram-se em rajadas para receber uma linda mulher de longos cabelos negros, olhar profundo, mãos macias. Já quase nua, perdera seus véus e vestes de matrona. Pisou altivamente o átrio, desafiando o destino e a dor. "Agora serei rainha"!



* * *

domingo, 7 de março de 2010

Para as tantas mulheres de minha vida...as ciganas, as sertanejas, as fortes, as "de pedra", as mães, irmãs, tias, primas, amigas"




I



Amanhã, eu serei cigana,
irei perturbar o mundo,
resserquir quem me engana.

Serei cigana, travessa, atrevida
lerei mãos, farei presságios
devastarei outras vidas...

Correrei descalça pelas ruas, cidades...
madrugando nas vilas escuras,
nem contando só verdades...

Amanhã, serei cigana, sorrindo
entre canções e sonhos
que corro, perseguindo...

28/setembro/88







II

Sonho deserto de mares
Gritando meu nome para as estradas.
O marinheiro não ouve
está escondido nos campos,
perdido, apagado entre vendavais.

Montanhas nos separam
Cada vez mais alegrando meu peito.
Ondas nervosas nos sugam
Misturando areia e alma doloridas.

Sonho fugas, abraços, distâncias
apregoando meus vícios para espanhóis.
Os cavalos todos procuram
a cigana fugida, tresloucada
em arrebóis sem destinos...

26/novembro/88*






Poemas publicados em "O chamado - ou um cântico para liberdade". Editora Scortecci. 2.ed., 2006.







Sina


A mulher do sertanejo;
mãe de sete filhos e outras tantas filhas,
pés inchados no chão ardente,
lenço colorido nos cabelos,
quando longo, coque prendendo-os;
vestido de chita, encardido,
amassado, curto demais.

A mulher do sertanejo
Olhos marejados diante do sol escaldante,
do marido distante,
dos filhos distantes,
das filhas caladas,
mal-vestidas, descabeladas,
confinadas
no silêncio de tristes mulheres sertanejas.


Imagens: Pesquisa Google - Acervo Projeto Portinari



DIA 08 de março - DIA INTERNACIONAL DA MULHER







quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Grande Navegação




Era preciso adotar uma prática totalmente nova para este problema: ou parar e deixar o vento levar a embarcação a lugar algum ou consertá-la, ali mesmo, entre as ondas, a possibilidade de vento forte e tempestade. Nada, porém, o impediria de chegar à ilha das possibilidades, dos sonhos realizados, das conquistas e glória. Foi uma noite infame. Sem fome, nem sede, tampouco descanso. Suave mesmo só o olhar no horizonte quando, agarrado à última tábua, livrava-se das ondas gigantes.





Imagem: Pesquisa Google => podblogchapeu.blogspot.com
Naufrágio (1805) , de William Turner